Enquanto todos se perguntavam se quem tinha nascido primeiro, seria o ovo ou a galinha eu descobri que foi um Galo.
Não um galo Qualquer, mas sim o Zagalo.
Ele era único, nos sentido de ser especial e no próprio sentido da palavra mesmo.
Não existia outro galo no mundo, na verdade não existia, nenhum outro animal no mundo, na verdade só existia o Zagalo, o mundo e o Zagalo.
Ele não veio do ovo, pelo menos não que ele se lembre.
Pelo que se lembra, ele sempre se lembrou daquele jeito como era, já grande, já galo, Zagalo.
E isso se deu em um dia, em um dia de dia.
Zagalo existiu, porque se percebeu, porque não tem nenhuma lembrança de si antes daquele momento.
Então foi naquele momento que ele nasceu, no momento em que ele se percebeu, que ele existiu, já grande, já galo, Zagalo.
E ele, Zagalo, ficou muito feliz, era um belo galo. E porque haveria de ficar triste? Não se sabia só, porque nunca havia se sentido acompanhado.
Não se sentia atrasado, nem adiantado, não tinha horário marcado, não tinha compromisso, ainda assim estava se encontrando.
Zagalo resolveu andar, para tanto deu um primeiro passo, o seu primeiro passo. Passo esse que lhe deu muitas idéias de dimensões.
Da dimensão do mundo que o cercava, da dimensão, do que ele não sabia e, sobretudo, da sua própria dimensão, onde começava e onde terminava o Zagalo.
Essas novas dimensões ele encheu de esperança e se serviu na mesma medida de dúvidas.
Não sabia muito sobre si, não sabia nada além de momentos antes daquele passo, Não sabia como havia sido feito, mas algo lhe dizia que não havia feito aquele mundo a sua volta. Então quem havia feito? Quem era o criador daquelas maravilhas? Será que esse mesmo criador, não havia feito o próprio Zagalo? E se foi isso. Por que as outras coisas não davam passos? Será que esse privilégio só havia sido dado a ele? Só ele, Zagalo, tinha a idéia das dimensões?
Será? Será?
Zagalo era só dúvida. Não tinha coragem de dar outro passo.
Mas quando ele já estava se conformando em ter aquelas dúvidas e aceitando que tudo era tão confuso, tão assustador, que aquele único passo seria o seu limite, o seu máximo. Que não teria mais coragem de alterar sua realidade. A realidade se alterou. O dia não era mais dia e um escuro chegou.
Zagalo ficou muito assustado, com mínimos movimentos conferiu e reconferiu sua posição para ter certeza que não havia dado outro passo. Não havia.
Ainda assim todo o mundo como ele sempre havia conhecido até então estava mudando radicalmente.
Zagalo pensou em voltar atrás no passo que já havia dado, mas também teve medo, pensou em não pensar nisso, pensou em não pensar, pensou em não ser Zagalo. Mas já era tarde demais.
Zagalo então ficou parado como uma estátua durante toda a escuridão, pensando em se esquecer dele mesmo, pensando que assim talvez pudesse não existir como antes. Que antes?
Não adiantou. Nada parava de mudar e, para Zagalo, as mudanças pareciam vir de todos os lados de todas as direções, inclusive de dentro dele, se sentiu saindo pra fora de si, escorrendo pelos olhos.
Mas finalmente a escuridão passou e a mesma força que impeliu aquele liquido para fora de Zagalo, empurrava um grito, mas agora sem medo, com algo bom, que Zagalo, ainda não sabia como se chamava.
Ele fechou os olhos de satisfação e fez um som que ele mesmo inventou para saudar o primeiro raio de luz que matava a escuridão e perdoava o passo de Zagalo.